Capitulo 1 - Um Conto da Lua Cheia

20 de janeiro de 2017 |

Uma fortaleza antiga realçava-se sobre um supremo monte rodeada por uma longa e alta muralha que protegia uma vegetação intensa e jardins bem trabalhados, com inúmeras estátuas e fontes de água, pertencentes aquele edifício ancestral. Entre essas plantas vários pirilampos reluziam tal como as inúmeras estrelas no céu daquela noite e aves diurnas sobrevoavam a área, cantando suas doces melodias de verão á luz da lua cheia.
Aquele era o palácio real, tão sublime como sempre, suas fachadas, suas torres, suas entradas, seus corredores, seus jardins… Dotados de uma beleza e cores inexplicável, um local bem seguro, de difícil acesso sobre um grande monte rodeado por uma suprema muralha de alta segurança, aquele era, é e sempre será o lar dos grandes Monarcas de Dreamian, o lar dos grandes governadores, o lar da mais importante família do reino!

Poderosos guerreiros acompanhados de suas montarias rondavam a área durante todo o dia e toda a noite, serviam e davam toda a sua vida em nome da família real que ali habitava, faziam as suas vigílias de modo dedicado, vagueavam calmamente de um lado para outro entre as árvores e plantes floridas, rondavam a muralha e suas torres, ou faziam patrulhas nos pátios e caminhos de pedra exteriores do palácio, bem armados e sérios, em silêncio, em busca de inimigos, usando a luz de poderosas lanternas para combater a escuridão intensa.
O silêncio era comum, sendo apenas quebrado por pequenas e doces melodias de aves nocturnas e o barulho suave dos ramos e folhas das árvores e plantas em movimento sempre que pequenas brisas suaves de vento passavam sobre as mesmas.
A escuridão era violenta entre a vegetação dos jardins, mas a luz encantadora da lua cheia, junto com vários candeeiros antigos de rua bem decorativos, iluminava todo o edifício e grande parte dos seus pátios principais.
Todo o palácio repousava, em paz, nenhuma luz estava ligada, as janelas dos quartos e salões elegantes apenas dominadas pelas sombras da noite em contraste com a branca luz da lua, porém, via-se um pequeno brilho salvador numa das divisões.

Naquela hora tardia da noite, uma jovem dama observava, atenciosa, sobre uma das muitas varandas do edifício, o luar, o céu e as estrelas, ela ignorava os guardas nas suas rondas, ou outras coisas consideradas interessantes que ocorriam no jardim e que eram por vezes visíveis apesar de toda a escuridão, também ignorava uma paisagem obscura para longínquas montanhas visíveis no horizonte e até mesmo para as luzes de casas e estradas perdidas no meio do negrume que indicavam a existência de uma cidade mesmo ali ao lado.
Aqueles belos olhos, virados apenas para um só lugar, a lua e as estrelas, sua total atenção assente em todo o vasto universo cintilante sobre si, as mãos com leveza apoiadas sobre as elegantes paredes da varanda, seu olhar distante e ao mesmo tempo muito brilhante para aquele tamanho céu nocturno de verão. Seus cabelos eram loiros, autênticos fios de ouro, e seus olhos azuis como safiras raras que brilhavam muito com todo aquele luar, ela usava um pijama elegante, era uma roupa branca e dourada muito larga e confortável para passar bem a noite.
A jovem parecia triste, muito triste, algumas lágrimas caiam de seus olhos, mas o luar sempre a confortava, as estrelas cintilando a alegravam um pouco, o cantar das aves diurnas a tentavam embalar para esta receber um bom sono o resto da noite, e tais majestosos sons do negrume misturados e levados pelo vento, pareciam formar uma triste, serena e incógnita melodia que pairava em toda a paisagem.

O sol triste que canta na escuridão
Olhar gelado que dança na depressão
o inverso um dia ocorrerá
Será que sim? Será que não? Só o tempo dirá.

Alma fria, grande coração que carece
confusão extrema que só e sempre arrefece
E quando será que tal finalmente aquece?
Não se sabe, o tempo tal sempre esquece

Será que esperado tal dia chegará?
o achamento da nova esperança
nova vida, sem nenhuma má lembrança
e logo... Sempre conter tal viva herança...

Porém...
Será que sim? Será que não?
Só o tempo dirá. Pois só ele tal aceitará.


Quase todos os dias, naquela hora, ela procurava sempre conforto num céu nocturno e num ambiente igual aquele… Durante muito tempo, ela ficava sempre ali, sozinha, parada, em paz, com aquele comportamento, olhar distante, expressão triste… Esta era Agnes, a princesa de Dreamian.

Passado muito tempo, uma brisa de vento mais gelada que o comum fez a jovem tremer, este foi o motivo que a fez voltar para dentro do palácio. Apesar de ser verão, ali era comum muito frio durante a noite e muito calor durante o dia, talvez devido a altitude onde o palácio se situava, sujeito a muitas massas de ar frias, ou então devido a outro motivo misterioso.

Ela entrou dentro do quarto, passos calmos, e sem grandes pressas usando gestos delicados fechava e trancava a porta de vidro deslizante e moderna que dava para o exterior, esta que também servia como uma grande janela do quarto e que oferecia uma vista deslumbrante.
O quarto era iluminado por um belo antigo candelabro situado numa mesa cabeceira ao lado de uma antiga cama, ele com suas sublimes chamas tornavam todo o quarto visível, a divisão era digna de uma verdadeira princesa, a grande riqueza em todos os objectos, as decorações, um sofá, várias pequenas mesas, uma secretária bem grande… Lá dentro continha quase tudo, parecia uma mistura de quarto, sala de estar e escritório com modernidades da mais alta qualidade e muitas raridades antigas à mistura, a divisão era toda dotada de um embelezamento de cortar a respiração, digno de pessoas com estatuto elevado, além de bastante espaçoso e acolhedor.

A princesa dirigiu-se directamente a sua cama, ela observou ao seu redor a riqueza de sua vida, o seu espaço pessoal mas ao mesmo tempo para ela deprimente, andava calmamente, passos serenos e leves, de cabeça baixa grande parte do tempo, até seu destino, á medida que dava alguns suspiros longos, sempre com a mesma expressão triste em seu olhar, ela aproximou-se da cama e observava a mesma, pensativa. Em cima desta dormia uma curiosa criatura, semelhante e também pouco maior do que um gato, era como uma gigante bola de pelo com uma cauda e duas antenas com um género de rectângulos na sua ponta.
Ela sentou-se sobre os aconchegantes cobertores e acariciou levemente a criatura que dormia profundamente sorrindo para si mesmo, depois apagou as chamas do candelabro num gesto gracioso e deitou-se com cuidado ao lado deste. Continuava a acariciar com ternura tal bicho inabitual, apesar dela estar sentido um pouco de frio, não se deu ao trabalho de se cobrir, já que isso implicava acordar o seu animal de estimação que dormia bem descansado e se tinha apoderado da cama inteira.

Agnes olhava para o além, para a escuridão, ela parecia assustada, era como se ela visse sombras perto dela, presenças ao seu redor, então fechava os seus olhos e abraçava com força o seu animal peludo… Parecia estar com pavor… Ela tentava se concentrar nas melodias das aves diurnas, que podiam ser, por vezes, no meio de todo aquele silêncio, escutadas com clareza dentro do quarto, e tentava ignorar qualquer outra coisa que para ela era assustadora.
De repente alguém bate á porta.

- Agnes! Posso entrar? – Disse uma voz, era uma voz muito doce, Agnes não respondeu, e também não se deu ao trabalho de se alevantar da cama para abrir a porta - Eu sei que estas acordada ainda! Os guardas viram-te na varanda!
- Entre… - Respondeu ela, finalmente, passado alguns minutos depois de um suspiro, a voz da jovem era baixa e um pouco tímida, ao mesmo tempo calma e doce, mas ouviu-se perfeitamente no silencio da noite.

Uma grande porta antiga e cheia de detalhes bem trabalhados, localizada um pouco longe da cama, no outro lado do quarto, abriu-se, uma mulher entrava calmamente, ligou a luz do teto através de um interruptor e fechava a porta, ela manteve-se sorridente, com um olhar sincero, parada mesmo ali observando a sua grande dama deitada junto ao animal, suas mãos estavam juntas uma a outra, assentes sobre a barriga como se ela esperasse por alguma ordem de um superior.
Sua raça não parecia ser humana, pois era muito diferente da princesa Agnes, como características principais esta possuía uma pele coberta por uma camada curta de pelo cor de areia, em sua cabeça continha pequenas orelhas e um nariz que lembravam um cervídeo, possivelmente era uma velha Sonnure, uma das espécies humanóides mais comuns do reino de Dreamian, na cabeça seu cabelo curto era da mesma cor que sua pele, aquela curiosa mulher também aparentava ter algum peso a mais devido ao tamanho de seu corpo e usava uma roupa de mordoma um pouco velha, suja e rasgada.

- O que deseja senhora Iara? – Perguntava educadamente a princesa depois de se aperceber quem era a sua pequena visita.

A mulher aproximou-se em passos leves da cama, por onde ela passava ela endireitava sempre algum objeto fora do lugar ou limpava alguma sujidade e lixo visível, afinal aquele parecia ser o seu principal dever. Quando ela chegou perto da cama sentou-se sobre a mesma e dava um sorriso pequeno e sincero.

- Eu só queria… Ver se estavas bem… - Disse olhando para Agnes, ela começou a endireitar o cabelo dourado da princesa com gestos delicados, a princesa simplesmente afastou-se um pouco e não disse nada, mantendo-se sempre com o mesmo olhar deprimente, e então algum silencio se passou.

- Já vi que não… - Comentou finalmente a mulher, adotando  logo em seguida uma expressão um pouco mais séria, Agnes permanecia em silêncio – Precisas de alguma coisa?
- Não… - A jovem respondia, com um tom de voz bem baixo.
- Tens a certeza? – A velha Sonnure continuava a perguntar e parecia bem preocupada – Queres um copo com água? Tens fome?...
- Eu não quero nada…
- Então… Não consegues dormir? Estás com frio?
- Um pouco… - Agnes respondia, porém virava as costas, e ficava ainda mais triste.
- Deseja no mínimo desabafar? – A mulher continuava a insistir com as suas interrogações.
- Não… Será que podias deixar-me sozinha? – A jovem dizia um pouco rude enquanto continuava abraçada e a acariciar a sua criatura de estimação peluda.
- Ouve bem Agnes, minha querida – A mordoma dava um suspiro bem longo – Eu me preocupo. E desde… Bem… Aquele dia… Estás sempre assim… Estás diferente… E eu só estou a tentar ajudar…

Novamente, silencio, a mulher sabia que naquele silêncio estava a sua resposta, e assim ela preferiu deixar Agnes no seu espaço, colocou-se em pé e esfregou a mão na sua cara, pensativa.
A temperatura desceu mais um pouco, o que fez a jovem estremecer e abraçar ainda mais a criatura á procura de calor e conforto, a senhora Iara reparou, e não pode deixar de reagir, então com um olhar um pouco maléfico pegou carinhosamente no bicho peludo e o colocou no chão. Este acordou confuso e abriu sua grande boca com muito sono, esticou seu corpo e sacudiu todo o seu pelo, depois sentou-se no chão, mexendo sua cauda de um lado para o outro, ele parecia resmungar por lhe terem destruído um bom momento de sono e ao mesmo tempo balançava levemente seu corpo, quase caindo de sonolência, olhava para ambas as pessoas, muito sério, com seus grandes olhos verdes.

- Coitado… - Agnes sentia pena do seu animal.
- Diz-me que atitude é esta… O Almôndega em cima da cama? O que seu pai disse sobre animais de estimação a sujar os cobertores?
- Mas ele estava a dormir tão bem… - Agnes dizia com uma expressão inocente.
- Eu sinceramente não me importo… Eu amo dormir ao lado de animais de estimação… Mas sabes bem que eu estou apenas a cumprir ordens exteriores – Ela dizia enquanto estava acariciando a cabeça peluda do pequeno animal – Sabes perfeitamente o quanto ele odeia ver pelos nos cobertores das camas… Depois quem sofre sou eu, a representante de todas as Aias do palácio…

Logo de seguida, a mulher desfez a cama e cobriu a princesa, segurava os cobertores bem calmamente, ela a aconchegava com carinho, seus gestos transmitiam realmente muita ternura, mas a princesa Agnes parecia não dar valor qualquer a todo aquele ato amoroso.

- Eu não sou criança nenhuma para… - A jovem começava a resmungar até ser interrompida.
- É o meu trabalho! – A mulher deu um sorriso um pouco irónico. – Pelo menos agora não vais sentir mais frio…

A princesa endireitava os cobertores a seu gosto e virava novamente as costas, a mulher ficava impaciente e pensativa, ela inclinou seu corpo e deu um pequeno beijo na testa da jovem.

- Um beijo? Eu já disse que…
- É o meu trabalho! – A mulher dava a mesma resposta de antes – Não importa se és criança ou não, a forma como o amor se transmite entre as pessoas não tem limites – Ela dizia com um grande sorriso e uma voz muito serena, a princesa não disse nada sobre aquele assunto, muito pelo contrário ela pareceu ficar ainda mais tímida do que o usual ao, aparentemente, corar.
- Pode fechar esta luz e sair?... Eu queria tentar dormir… - Agnes dizia passado mais alguns breves momentos de silêncio, com uma voz baixa, como se tal fosse um favor.
- Eu posso ajudar… Não existe nada melhor que uma boa história para adormecer!
- Uma história… Para adormecer?...
- Um bom livro é a solução para tudo! – A mulher dizia com uma gargalhada.

A criatura peluda ergueu logo suas antenas quando ouviu aquela palavra, ‘’livro’’, naquele instante ficou imediatamente sem sono e começou a correr pelo quarto inteiro, deixando um pequeno rasto de barafunda, parecia procurar qualquer coisa de forma desesperada, até ele chegar a uma estante com muitos livros de variedades incontáveis, ele pegava em um deles com sua grande boca, e logo em seguida corria e saltava para cima da cama, ele entregava o livro á princesa, esta não recusou, sentou-se e recebeu o presente inesperado.
O objeto estava um pouco molhado e com a capa quase estragada devido á baba e pequenos dentes do animal, a velha Sonnure entregou-lhe logo algum papel para limpar o mesmo, depois de devidamente limpo, Agnes observava durante algum tempo toda aquela obra por fora.

- Os Dreamurs são seres tão fofinhos e inteligentes, eu só quero apertar um! – A mulher estava encantada com a atitude do animal.
- ‘’Gladius - Uma história de um Orc?’’ Autores desconhecidos... Queres que eu leia isto?... – Agnes perguntava um pouco tímida enquanto olhava para o seu mascote, o mesmo parecia sorrir e estava a observar atentamente a jovem, sentado em sua frente sobre os cobertores.
- Eu amo esse livro! – A mulher ria, mas depois logo ficou pensativa – Inspirado em factos reais… É muito interessante, mas demasiado pesado para uma hora destas e também para a sua… Idade… Eu acho melhor algo mais leve para ajudar a adormecer…

A mordoma dirigiu-se á mesma estante onde a criatura fora buscar aquele livro, ela arrumou o mesmo no seu devido lugar e tirou outro, ainda maior, depois dirigiu-se novamente á cama e entregou gentilmente á princesa.

- ‘’Os Maiores Contos de Fadas de Dreamian?’’ Por Gilda Montello – A princesa lia o título do mesmo e a respectiva autora com uma voz de tonalidade baixa e observava cada detalhe do livro, incluindo todo o seu tamanho e número de páginas.
- Sim… Não existe nada melhor para ler antes de adormecer do que um bom conto de Fadas! - A mulher dizia e de certa forma notava-se alguma ironia em sua voz.
- Estás brincando comigo? – Agnes ficava mais séria que o comum.
- Se não quer, então eu já vou buscar o outro livro, parece ser melhor…Muito melhor! – A senhora Iara dava uma expressão sarcástica e depois contava pelos dedos  – Deixa lá ver… Ele tem um monte de erros estranhos e inexplicáveis de enredo… Sim! Não tinha escolha melhor! Aquele livro é demais!
- Não é isso… É que… Eu não aprecio contos de fadas… - Agnes olhava para o livro nas suas mãos, mais uma vez a sua resposta surgia passando algum silêncio e com uma tonalidade profundamente triste.
- Dê uma explicação lógica para isso…
- Eu… Não acredito em finais felizes…

Com aquelas palavras a mordoma ficava de certa forma triste e muito incomodada, tanto triste como o olhar depressivo da princesa, ela andava até a principal janela do quarto, aquela que também era uma entrada para a varanda, depois de puxar as cortinas para o lado a mesma permitiu a luzência da lua cheia penetrar naquela divisão do palácio e logo em seguia ela ficou ali, imóvel, apreciando as vistas e a natureza sombria e bela daquela noite.

- A verdade é que nem todos os contos de Fadas tem um final feliz minha querida… São raros os contos assim mas… Tristezas existem sempre… - A mulher dizia com uma voz muito doce e calma.
- Nessa lista de raridades… Está incluída a… Minha vida? – A jovem logo dizia e não deixava a mulher terminar sua frase.
- Eu sabia que ias tocar nesse assunto… Não seja assim pessimista! – A mulher se revoltava, mas logo em seguida deu um suspiro, acalmou-se e virou-se de novo para a janela, ficando a observar o luar - A sua vida ainda não acabou… Ainda tens muito pela frente… Quem sabe uma nova história comesse… Um novo capítulo para a sua vida… Talvez ele esteja mesmo a se iniciar… Neste momento!...
- Duvido… - A princesa dava um suspiro deprimente novamente acompanhado de suas palavras tristes.

Almôndega estava impaciente com toda aquela conversa para este era chata, Agnes ficava olhando para o livro nas suas mãos e nem o procurava abrir, mas o que o pequeno Dreamur realmente queria era passar logo para a ação, queria logo ouvir uma boa história. Assim com um gesto rápido ele removeu aquela obra das mãos da princesa, mordeu a mesma, rasgou algumas das folhas, com suas pequenas garras machucou as outras e acabou em determinada página. Ele, de um momento ao outro parou e sentou-se, satisfeito, fechava os olhos e pareceu sorrir, colocava sua pata levemente sobre uma das páginas, a mesma era marcada por um título e aparentemente era o início de um dos contos.

- Não é por nada mas eu acho que tens que controlar melhor ai o Almôndega… - A mulher sorria olhando a sujeira causada pelo animal, mas logo de seguida volta a contemplar a lua e o céu noturno – Ainda bem que eu consigo um novo livro igual a esse muito facilmente…

Agnes pegava naquela velha obra praticamente estragada delicadamente, logo de seguida limpava a pequena sujeira causada, Almôndega queria definitivamente ver a sua dona ler aquele conto, a princesa olhava com curiosidade, em tal página era possível contemplar a ilustração de uma flor, sua espécie lembrava uma magnífica túlipa encarnada e agarrada a suas pétalas estava uma pequena bela menina, ao seu lado estava um pássaro grande com lindas penas vermelhas, laranjas e douradas, brilhantes como fogo, e ele estava rodeado por algumas chamas. Aquele era um dos contos de Fadas típicos de Dreamian, talvez um dos menos conhecidos e populares entre as pessoas, mas ao mesmo tempo para muitos um dos mais belos e encantadores…

- Parece que ai o Almôndega também quer ajudar…  – A mulher sorria.
- Mais… Finais felizes? – Agnes esfolheava as páginas e observava os desenhos, chegando logo á conclusão do conto.
- Faz um esforço, finais felizes podem ser mais interessantes do que imaginas – A mulher dizia continuando a olhar a grande lua brilhante no céu atenciosamente.

O pequeno animal fazia uma expressão fofinha em seu olhar e de certa forma criava um ato de chantagem para a jovem, era como um daqueles pedidos de uma criança para os pais comprarem um brinquedo de que o mesmo deseja tanto. Agnes não resistia á fofura transmitida pelo seu observador, assim o Almôndega a convenceu por fim a ler aquele conto do livro.
A mulher observava ao longe a princesa a começar a ler e esta assim deu um pequeno sorriso, depois voltava a olhar sempre para as vistas da janela, muito pensativa.

- Está uma bela noite não é? – Ela perguntava enquanto continuava observando pela janela o exterior.
- E fria… - A princesa acrescentava com alguma timidez em suas palavras, ela estava naquele momento mais interessada em ler a pedido do seu animal, este observava o mesmo conto com seus grandes olhos verdes, sentado entre os braços da dama e o livro.
- Eu também conheci alguém que não gostava de finais felizes e acabou terminando em um… - A mulher suspirava muito deprimente – Ela também adorava observar a lua e as estrelas em noites iguais a estas… Vocês são… Realmente iguais…
- Quem era? – A princesa perguntava curiosa, mas a mulher decidiu fazer então silêncio, ela fechava os seus olhos e uma lágrima escorria pelo seu rosto, deixando  a jovem sem qualquer resposta.

Agnes então retomou á sua leitura e encarou as páginas do livro, observava muito atenta cada uma das ilustrações á medida que lia as palavras doces do conto, Almôndega também acompanhava a leitura. Típico da maioria dos contos de fadas infantis, Agnes leu todo o texto em menos de quinze minutos.
Nele, basicamente a personagem um dia salvou uma Fénix que se sentia presa e só, ambas ficaram muito amigas, era sempre ao lado dessa Fénix que a menina procurava atenção e conforto, ambas aprenderam juntas diversas lições de vida e a Fénix encontrou o caminho para a verdadeira luz. Um dia, uma assombração volta, dizendo que era hora de alguém pagar sua divida, e a menina fora levada para longe, sendo obrigada a se casar. Mais tarde a sua antiga companheira a ajudou a fugir do casamento e lhe mostrou a liberdade e o caminho para a verdadeira felicidade.
Depois de terminar a leitura, a princesa encarou muito seria a sua mordoma.

- Foi assim tão mau? – A mulher se virava de novo e encarava a jovem com um ar irónico.
- Mais ou menos… - Agnes suspirava – A menina e a Fénix… Já li piores…
- Os contos de fadas podem nos ajudar, ensinam lições e valores muito importantes, devias os dar mais atenção e carinho… – A mulher dizia com um pequeno sorriso, que ao mesmo tempo parecia transmitir uma sensação triste - E deixa lá adivinhar… Ainda não tens sono?
- Por acaso agora tenho…
- Eu disse que ia funcionar! Ler uma história funciona sempre! – A mulher deu um sorriso sarcástico enquanto Agnes arrumava delicadamente o livro na sua mesa cabeceira ao lado da majestosa cama, se endireitava entre os cobertores e bocejava - Bem… Então é melhor eu ir andando… - A mulher deu um suspiro, depois de contemplar a lua e o céu brilhante uma última vez, endireitou as cortinas da janela e começava a se retirar do quarto, até ela chegar á porta – Durma bem… Amanha é um dia longo…
- Dia longo?... – Agnes olhava um pouco assustada para a velha Sonnure.
- Sim… Tens que acordar cedo para as aulas com o seu mentor, vão ser importantes…
- Aulas… Mentor?... – A princesa ficava ainda mais assustada que antes.
- Sim! Não se lembra?... É a véspera do seu aniversário?... E na próxima semana a tua primeira Reunião do Concílio… Temos que iniciar tudo com antecedência e o teu mentor tem que te ensinar umas coisinhas… Importantes – Depois de tais palavras Agnes bateu rapidamente com a sua mão na sua cara.
- Eu… Esqueci completamente! – Ela demonstrava uma grande atitude de frustração.
- Como é que ela se esqueceu da altura do ano que ela mais odeia? – A mulher dizia para si mesma enquanto fazia uma pose dramática, porém, a jovem não entendeu.
- Foi nesta altura do ano que… Aconteceu aquilo… - A princesa suspirava e voltava a ficar ainda mais deprimente, a mulher fechava os seus olhos e baixava a sua cabeça como sinal de respeito.
- Mudando de assunto… Devo avisar que, como vais completar os quinze anos, o seu pai achou que naquela reunião que ocorrerá daqui a uns dias, bem… Devias conhecer alguns príncipes… - A mulher pareceu evitar querer dizer tais palavras.
- Príncipes?
- Eu sinceramente não entendi… Mas talvez já imaginas os motivos certo? É algo muito previsível…  A mordoma transmitiu um alto sorriso sarcástico ao dizer tais palavras.
- Eu não acredito… - Agnes pareceu pensar em algo que lhe fez ficar um pouco furiosa e assim resmungava para si mesma, a mulher não entendeu suas palavras mas observava atenciosamente aquele comportamento estranho da jovem dama.
- Eu sabia que ela ia odiar esta novidade… - A mulher virava a cara e murmurava seu pensamento, depois voltou a olhar a princesa – Como vê, amanhã vai ser um dia… Digamos… Um pouco terrível… É melhor logo adormeceres… Boa noite minha querida… Fique bem… - A mulher dizia enquanto fechava a luz e saia do quarto calmamente.

Agnes não respondeu nada e abraçou a sua criatura peluda que continuava sempre a seu lado como se ele fosse um grande boneco de peluche. A princesa ficou um tempo a encarar a escuridão que estava no quarto e com medo fechava levemente seus olhos , agarrava o seu animal com ainda mais força e novamente tentava se concentrar em ouvir as melodias exteriores, os pássaros da escuridão, e dessa forma não tardou muito tempo até ela finalmente adormecer embalada pelos misteriosos sons da noite…
...

A mordoma saia do palácio em plena noite, ela andava sozinha, observava o grande edifício de perto muito pensativa e olhava para aquele rico céu nocturno inúmeras vezes, um céu limpo e cheio de magníficas estrelas cintilantes, uma paisagem surreal que raramente se mostrava naqueles céus.
Ela andava calmamente no exterior, de um lado para o outro, parecia incomodada com alguma coisa além de muito triste, depois de algum tempo assim, inquietada por qualquer motivo misterioso, acaba por se dirigir até o interior do jardim real usando um caminho de pedra rodeado por várias flores, o seu comportamento incomum para uma senhora durante tal hora tardia da noite chamou logo a atenção de alguns dos guardas que andavam em vigília ali perto.

- O que a senhora faz aqui fora sozinha a esta hora da noite? – Um dos guardas se aproximava desta mulher e perguntava, a impedindo de continuar a seguir o seu rumo.

A mulher suspirou, um suspiro impaciente que logo indicou que a mesma não queria revelar os seus motivos, mas naquele momento estava precisamente a encarar uma figura de autoridade, e assim de um modo ou outro, tinha que responder. Esta observava durante algum tempo aquele guarda, ele continha uma cabeça de lobo e um corpo liso que parecia ser de um mamífero marinho, com uma cauda cumprida de peixe, ao longo de suas costas até a ponta da cauda continha várias barbatanas pontudas, ele era, aparentemente, um jovem Telquine, uma espécie humana muito curiosa que vivia nas regiões mais gélidas de Dreamian, eram incomuns de se encontrar naquela área. Este guarda, diferente dos outros, era magro e parecia fraco, ele mal se aguentava em pé com a grande armadura que usava, mas notava-se o seu esforço e preocupação em realizar um bom trabalho em nome da família real.

- O senhor é novo por aqui certo? – Ela perguntava de modo educado.
- Sim, meu nome é…
- Deixa adivinhar… Endiock Howell? – A Sonnure o interrompia e deu uma pequena gargalhada, depois cumprimentava o guarda com um pequeno sorriso no rosto, este ficava um pouco assustado com a adivinhação repentina da sua identidade – Eu ouvi falar, o membro mais recente da Guarda Real e o filho adotado do grande General das Forças Armadas, Raymond Howell, ele fez muito por mim e é um prazer conhecer um membro da família dele pessoalmente…
- Exato… Quem é a senhora? O que faz por aqui? – Ele perguntava com certa desconfiança.
- Iara Lavender – Ela logo respondia educadamente enquanto mostrava em sua roupa um curioso emblema, estes que classificavam os cargos daqueles que trabalhavam para a família real, algo típico em Dreamian desde os primórdios do reino e sua monarquia – Eu sou a principal mordoma da princesa Agnes, além de uma das líderes e representante de todas as empregadas do palácio… Sirvo-a sempre a pedido das palavras da própria Rainha.
- Certo… Eu já ouvi muito sobre si… Então não existe motivos para desconfiar… - O guarda dava um suspiro de alívio porém parecia ainda um pouco incerto - Desculpe o incómodo senhora, eu sou novo aqui e…
- É compreensível… - A mordoma dava um sorriso e colocava a mão com leveza no ombro do jovem guerreiro – Se conseguiu entrar na Guarda Real, é porque trabalhou muito para isso. Boa sorte com o emprego novo… Talvez um dia sejas considerado um grande guerreiro como o seu pai.
- Farei os possíveis – O Telquine sorria, ele realmente mostrava muito esforço em seu trabalho - Pode continuar a fazer o que pretendia, se precisar de algo urgente, é só chamar, estarei aqui com os outros guardas a seu dispor!
- Só uma pergunta… - A Sonnure dava um pequeno sorriso – Como está o seu pai?
- Stressado como sempre… - Endiock dava um suspiro muito deprimente á medida que respondia aquela questão.
- Ele continua sempre a pensar em matar aquela pessoa?...
- Sim. Está sempre atrás dela, aquela maligna criatura amaldiçoada… Por muito que ele tente, ela acaba sempre por fugir… Meu pai quer vingança… – Ele dizia e de certa forma se notava uma mistura de tristeza e muita raiva em suas palavras em tal preciso momento.

A mulher de certo modo voltava a ganhar uma expressão triste em seu olhar, ela se afastava do guarda sem nenhuma despedida nem comentário relacionado com tal assunto, este simplesmente a encarou durante algum tempo á medida que esta se distanciava, ele ficava assim também pensativo, de seguida se reunia com os outros guardas e assim continuava na sua rotina nocturna nos pátios e jardins do palácio em nome da segurança da família real.

A mordoma dava vários suspiros e continuava a andar nos caminhos de pedra rodeados de flores por entre a vegetação densa, passado algum tempo alguns pirilampos e outros animais da noite começaram a caminhar ao redor dela e a acompanhar no seu pequeno passeio, esta os observava e apreciava com algum carinho em seu olhar, á medida que com passos serenos caminhava por entre a escuridão da noite. Era como se os pirilampos e os outros animais a mostrassem e iluminassem o caminho.
Não tardo muito tempo até chegar a um lago, um pequeno lago com beleza e brilho impressionante rodeado por muitas grandes árvores antigas e uma vegetação quase selvagem em suas margens, no centro deste podia-se contemplar um pedregulho pontiagudo e sobre ele uma pequena velha estátua de pedra negra muito desgastada com o tempo que parecia representar um dragão com suas asas abertas em direção ao céu, que tal como o velho pedregulho, era coberta de limos e algumas plantas aleatórias de pequeno tamanho que cresciam naqueles ambientes aquáticos.

A mulher ajoelhou-se na margem e observava de perto suas límpidas águas durante alguns momentos, muito pensativa, ela encarava o seu próprio reflexo e o reflexo da reluzente claridade branca da lua e das estrelas sobre a superfície do lago. Logo depois, com muita calma, mergulhava suas mãos, ela fechava os olhos e sentia a frescura da água penetrar em sua pele, de seguida removeu um pouco desta com calma e lavou a sua face, sempre com uma expressão triste em seus olhos e assim ela ficava, em silêncio, encarava tudo ao seu redor e tentava ouvir as melodias da noite, apreciar todo aquele ambiente sossegado e natureza mágica e ao mesmo tempo sombria da área.

- Então dona Iara… Problemas com a Princesa Agnes de novo? – A mulher ouvia uma voz repentina, que para si era muito familiar, ela logo sentia uma grande presença mística atrás dela, manteve-se muito calma, virou-se e olhava por entre as árvores com movimentos vagos, lá estava uma criatura, era grande e não parecia ser humana, porém devido a escuridão sentida naquela área, onde a lua não conseguia penetrar, a forma da misteriosa besta não era reconhecível.
 - Todos os dias é quase sempre a mesma coisa… - A mulher se manteve sempre pensativa e triste – Eu não consigo fazer mais nada por ela… É difícil…
- Tente… Faz mais um esforço… Eu sei que consegue… - A criatura respondia, aquelas suas palavras amorosas tentavam ajudar a mulher, sua voz era, tal como a da própria mulher, calma e muito doce, tendo como principal diferença ser uma voz masculina e parecer vir de alguém extremamente poderoso e sábio.
- O que queres que eu faça mais? Eu a trato como uma criança, como uma filha minha desde… Sempre… Eu acho que ela já se cansa de mim… Ela já não deve gostar mais de mim… - A mulher parecia mais triste e preocupada do que o normal, além de profundamente confusa.
- Não… Ela não está nada cansada… É a personalidade dela, lá no fundo ela, na verdade, te adora… Nunca a abandones… Luta com mais força, ajuda a jovem a construir o seu conto de fadas – Ele dizia enquanto se movimentava nas sombras, ele pareceu encarar a lua naquele momento.
- Novamente… Ela me fez lembrar tanto aquela pessoa… - A mulher também encarou a lua muito atenciosamente e depois fechava os olhos, deles caiam varias lágrimas. - Eu ainda me sinto tanto culpada por aquilo que aconteceu…
- Acalme-se… Eu já disse inúmeras vezes… Aquele acontecimento não foi sua culpa… - A oculta criatura suspirava, notava-se que tal suspiro saiu muito deprimente – A princesa Agnes precisa muito de si… Apenas sê… Sê como a Fénix.



6 comentários:

CanasOminous disse...

Hey, Shii! Finalmente arranjei um tempo para vir comentar seu primeiro capítulo kkk E que bela introdução, gosto muito de inícios tranquilos que plantam vários mistérios e vão os decifrando conforme o roteiro passa. Acho bem melhor do introduções cheias de explosões e conflitos kk Tenho de admitir que me surpreendi com a Agnes, eu a imaginava sendo uma garota muito amável e até meiga, mas vejo muito rancor e tristeza nela, do tipo que iria contra tudo e todos se possível, ela só quer fugir dessa vida dela.

É a primeira vez que vemos o Almôndega em ação! Agora que vejo como você o retrata, só consigo enxergá-lo como um pequeno mascote mesmo, mas ele ainda terá algo importante no enredo? Vai ver o Almôndega é a última peça de um enigma passado de geração em geração e só será explicado nas últimas páginas, haha.

Poxa, eu adorei a mordoma da Agnes, Iara é o tipo de personagem carinhosa e que faz de tudo para agradar aqueles que serve. Mesmo que a Agnes tenha sido grossa muitas vezes, ela ainda tentou dar o seu melhor, até porque o pai dela é muito ausente e parece tomar decisões contra sua vontade, como a de combinar de casá-la com um príncipe. Espero que a Agnes se safe dessa. Só posso dizer que gostei bastante! :) Continue escrevendo novos capítulos sempre que puder!

Shiny Reshiram disse...

Fico feliz em saber que gostou! kk :3

Calma, ainda não chegou á parte de ''Agnes boazinha e super fofa'', a princesa Agnes é daquelas personagens que pretendo mudar ao longo do livro, fazer crescer de personalidade e alma. Agora ela é assim, cheia de tristeza e demonstrando revolta ao mundo, mas no futuro será claramente diferente, por isso continue com essa essa mentalidade de amável e meiga.

Almôndega não é um mascote qualquer, é o ALMÔNDEGA! O bichinho vai surpreender, não se preocupe.

Iara é um amor <3 É uma das personagens Secundarias mais importantes, quase tão importantes como os protagonistas, ela é uma Sonnure linda, engraçada, e... Obscura... Vai ter muita Iara no livros! kk


E que o cliché comesse! A princesa da historia não se quer casar com um príncipe e acaba por fugir, mas será que vai ser mesmo assim? E quem será esse príncipe? Será que ele quer casar com ela? Qual a sua raça? Prepare-se para alguma originalidade! (ou não) kkk

Donnel disse...

Se for aquele príncipe , originalidade é pouco ( SPOILER : pai da Agnes não é nem um pouco seletivo )

Shiny Reshiram disse...

Não é original? Está a dizer que uma princesa se casar com um cão rafeiro não é original? Olha que não é todos os dias que isso acontece! kkk

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Donnel disse...

Spoilers no comentário , e eu estou dizendo o oposto ,isso é muito original

Shiny Reshiram disse...

Ironia é magnifica.