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Capitulo 3 - Uma dor pelo passado

17 de julho de 2017 |

O tempo voava suavemente, cada minuto e seus devidos segundos pareciam nunca passar dentro de tal nobre e velha sala de ensino, era como se o tempo estivesse parado. A princesa e o seu mentor, Franklin O’Chicken, continuaram ali nas aulas durante toda aquela tediosa manhã, como era o usual, o mentor fazia o que podia para explicar até mesmo os assuntos mais complexos á princesa, todos estes sobre questões do reino e das próprias éticas da realeza, tais explicações eram concretizadas cautelosamente na tentativa de estimular os comportamentos morais e requintados da jovem, qua claramente fazia um grande esforço para aceitar tais ideais e deveres na sua vida. De certa forma, parecia obrigada a tal, pois nascera apenas por um objectivo, ser a herdeira de um grande cargo que guiaria uma nação inteira.
Agnes ouvia atenciosamente todas as palavras sábias e explicações deste nobre homem e respondia educadamente, calmamente e com alguma segurança, a todas as questões lhe propostas, sempre que esta errava, ele a corrigia com calma, por vezes era um pouco rude e demonstrava impaciência, mas tal parecia-lhe ser normal. Franklin era um excelente professor, o mais prestigiado do reino, apesar de por vezes ser um grande crítico e arrogante, no fundo era carinhoso e bastante gentil, á mais de cinco anos que se dedicava ao ensino de éticas e valores á princesa a pedido do próprio rei. Ela parecia sentir-se bem confortável na companhia deste homem pois já estava habituada á sua presença durante quase todos os dias ao longo dos últimos anos.

Chegou a hora da saída, Frank permaneceu na sala a organizar documentos ou planificar as suas futuras aulas em relação á educação da princesa. Lá fora, mesmo ao lado da porta de tal antiga sala, posicionada devidamente, com as duas mãos reunidas uma á outra, assentes sobre a sua mediana barriga, a mordoma Iara já esperava pela saída da princesa pacientemente. No momento olhava para cima de um modo muito pensativo, com a cabeça encostada á parede e suas longas orelhas de cervídeo abaixadas, encarava o teto requintado do longo corredor e em silêncio apreciava todos os seus distantes pensamentos.
A dama se despedia do mentor com palavras tímidas, este que sentado na sua secretária apenas retribuía tal pequeno ato generoso com um pequeno sorriso á medida que a observava saindo rapidamente da sala, esta apenas dava um longo suspiro de alívio, aquele era apenas mais um dia de aulas cumprido, mais um momento de claro aborrecimento bem superado.

Agnes logo reparava na presença da nobre e querida mulher, repentinamente a mesma acordou da realidade e em gestos um pouco bruscos logo erguei suas orelhas e virou a cabeça para o lado, mal observou a princesa fora da porta deu logo o seu típico sorriso e olhar sarcástico, como se tivera voltado a fixar toda a atenção no mundo ao redor e não apenas nas suas incógnitas recordações. Ela ao ver a sua mordoma ali fez logo uma expressão facial bem peculiar, pois algum pensamento lhe ocorrera no momento.

- Pela tua cara, ele censurou alguma coisa… Bem… Qual foi a crítica de hoje? – A mulher perguntou com alguma curiosidade por reparar naquele comportamento, a princesa revirou um pouco os seus olhos e deu um pequeno suspiro impaciente como reacção pois parecia não querer responder a tal interrogação.
- Ele… Te chamou de… ‘’Bruxa estúpida’’…  – Ela fechou os olhos e fora muito direta com tal resposta, dizendo a mesma calmamente e com alguma frieza que ao mesmo tempo demonstrava uma suave sinceridade.
- Pelo menos o meu apelido não é O’Chicken! – Falou á medida que dava uma das suas normais gargalhadas, a princesa simplesmente ignorava aquele humor seco, ou então apenas não entendeu tal graça, encarando a parede numa igual tentativa de desentender aquele mesmo argumento, nele existia um pequeno calendário devidamente actualizado, mesmo ao lado de outras relíquias e decorações aleatórias de grande requinte.
- É aquela altura do ano… - Sussurrou esta suavemente, a Sonnure não ouviu aquelas palavras.

Logo de seguida a princesa Agnes adotou uma posição triste e pensativa como era de seu normal, a mordoma voltava á antiga e mesma disposição pela qual se encontrava anteriormente, apoiada na parede e olhando para cima, pareceu, novamente, reflectir sobre os misteriosos motivos anteriores.
Ambas ficaram ali paradas durante alguns minutos naquele mesmo estado, meditando sobre seus passados e olhando para memórias muito distantes daquela sua realidade em pleno silêncio. Porém passado alguns segundos de tal perdido tempo, Agnes acabou por acordar daquele clima entediante e depressivo. De seguida, apenas encarou a mordoma durante um certo período de tempo, o mesmo, em tal instante, aconteceu com a nobre Sonnure, que igualmente acordava e observava a princesa.
Tentando voltar, mais uma vez á realidade, Iara voltou a sorrir, de forma sincera, retribuía aquele olhar vindo da jovem com muito carinho ao longo daqueles vários instantes silenciosos, então decide aproximar-se da princesa e assim encarou esta de perto, olhos nos olhos.

- Estás a crescer… A ficar uma mulher magnifica!... Eu ainda me lembro quando te conheci, eras uma criança de cinco anos muito querida… - Ela dizia repentinamente, com um longo sorriso meigo acompanhado por palavras doces, depois começou a endireitar o cabelo de Agnes com gestos cheios de ternura, a princesa se distanciou dela muito tímida por ouvir tal elogio e experienciar tal ato bondoso.
- Eu… - A princesa estava muito envergonhada por tais palavras, e não sabia exactamente como questionar, mas com cuidado, pronunciava cada letra serenamente – Como… Me conheceste?
- Não te lembras?… - Questionou Iara. A princesa respondia não com alguns simples gestos leves, igualmente tímidos. A nobre Sonnure logo baixou a sua cabeça, voltando novamente á atitude pensativa, fechava os seus brilhantes olhos cor de mel, parecia muito triste naquele instante, então pronunciou suavemente – De facto… Eu… Prefiro não comentar sobre esse dia…
- Eu… Entendo… – Agnes retribuía a resposta de um modo igualmente muito triste á medida que baixou levemente a sua cabeça, de seguida a única coisa que se ouviu foi o típico silêncio, mais uma vez…
- Bem… Minha querida… - Todo aquele sigilo era finalmente quebrado pelas palavras doces da nobre Sonnure, que voltava á sua atitude típica e tentava, novamente, animar a princesa com alguma piada fora do contexto do assunto, com relação iludida a algum dialogo anterior – Vê o lado positivo… O Frank e suas críticas são suportáveis, ao contrário da nojentinha da Lyndis!
- Eu ouvi essa… – A tal gata humanóide aparecia, vinda do lado esquerdo do corredor, com passos bem acelerados, olhos bem arregalados e suas grandes orelhas peludas e pontudas abaixadas, com comportamentos requintados e pouco usuais de sua personalidade demonstrada anteriormente. A parte do corpo onde o raio criado pela Iara havia atingido á algumas horas atrás estava enfaixado com muitas ligaduras, algo que se realçava logo no corpo felino, pequeno e magro desta.
- Como o velho e repetitivo ditado diz, quando se fala no demónio ele aparece! – A mordoma Iara olhou directamente para Lyndis e começava a sorrir sarcasticamente, demonstrando uma boca um pouco desdentada. A outra empregada apenas ignorava e encarava a princesa.
- São horas do almoço… Todos já estão no refeitório a esperando... Por isso a vossa alteza que se apresse… - A recém chegada empregada dizia tais palavras com uma tonalidade de voz um pouco estranha e atenciosa, algo que, acompanhado com sua conduta no momento, fazia esta muito diferente do que era normal, talvez recebera algum sermão do rei devido a suas atitudes incorrectas para uma empregada do palácio á algum tempo atrás.
- Almoço? Já? – A mordoma olhava confusa ao seu redor, acabou situando a sua visão sobre um grande e antigo relógio de pêndulo que existia numa certa área no corredor, mesmo ao lado de uma pequena estante moderna repleta de pratos coloridos, porcelanas de terras distantes, estátuas de bestas e heróis honrados, entre outras relíquias raras e coloridas meramente ilustrativas ali existentes e que profundamente embelezavam tal longo corredor.

Era uma das mais ricas relíquias existentes naquele mesmo corredor, mas seu valor talvez não era comparável aos restantes objectos antigos existentes nos restante aposentos do palácio. Este marcava precisamente naquele momento o meio dia seguindo naqueles instantes pelo som de suas respectivas e poderosas badaladas, a mordoma coloca então a mão na sua cabeça, em choque devido a tal revelação, demonstrando que para ela tal hora era inexplicável, como se ela tivesse sempre distraída, sem prestar nenhuma atenção ao tempo durante toda a manhã e assim, claramente, pensando que eram outras horas.
Lyndis apenas virava a cara ao notar tal reacção, talvez já estava esperando algo semelhante vindo de uma das principais mordomas do palácio enquanto a princesa colocava a sua mão sobre a sua barriga, sentindo um ruído vindo do interior do seu estômago, confirmando que era a hora certa para uma refeição completa e requintada da realeza.

– O tempo passa realmente a voar nesta história!… Eu estou agora super atrasada com os meus deveres! Eu devia estar a ajudar na cozinha! E nos preparativos para amanhã! Eu… - A mordoma demonstrou uma atitude que reflectia pensamentos de alguém extremamente confusa e nervosa, assim acabou muito irrequieta, com a mão tapando a sua boca andava rapidamente de um lado para o outro mirando o chão de azulejo brilhante daquele corredor, com uma expressão facial muito séria e assustada, praticamente choramingando.
- A Iara sendo irresponsável?!… Que novidade interessante!… - Lyndis apenas ria com tal situação e nervosismo da sua superior, o seu tom de voz irónico apenas indicava que tal caso de ‘’irresponsabilidade’’ não era o primeiro a surgir.

Iara realmente ficara muito confusa e stressada com tal hora marcada pelo relógio ancestral, a mesma aproximou-se deste para ter a certeza se o mesmo estava funcionando correctamente, batendo com o seu punho varias vezes no vidro que cobria os seu ponteiros ou inspeccionando suas engrenagens, queria certificar se tal realmente marcava aquela hora ou se tudo era um apenas sonho… A princesa de certa forma não entendia o argumento defendido por esta e assim dava um olhar simples para tal Sonnure: ‘’Tempo passa a voar nesta história?’’, para ela aquela manhã exausta sempre tivera sua duração andando calmamente, a um ritmo praticamente nulo.

- Eu não acredito… Estou realmente atrasada para meu trabalho… - A Sonnure ficou completamente vermelha depois de cair totalmente na realidade enquanto Lyndis apenas demonstrava seus comuns sinais de impaciência.
- É melhor ires lá trabalhar de vez… Antes que alguém ou o queridinho rei reclame… Novamente… - Lyndis dizia com alguma arrogância em sua voz, á medida que revirava os seus olhos para o lado, indicando que tal já era, claramente, usual.
- Sendo assim… - A mordoma parou um instante e ainda em gestos atarefados aproximou-se da princesa, para se despedir e ainda lhe transmitir alguma informação – O Almôndega ficou no quarto a dormir… Eu consegui acalmar aquela peste… Quando precisares de alguma coisa, é só chamar, sabes perfeitamente como e onde me encontrar…

A princesa concordava utilizando simples gestos leves com sua cabeça, Iara olhava directamente para ela e dava um grande sorriso muito incómodo, mostrando a sua boca desdentada, a falta de dentes da Sonnure fez com que a princesa baixa-se a sua cabeça um pouco vermelha sem nenhuma razão visível, depois de alguns segundos acabou por se distanciar desta, inclinando levemente a sua cara para o lado, numa tentativa de ignorar tal demonstração de afeto daquela empregada do palácio.
Iara acabou por ficar um pouco triste devido a tal atitude, ou então reflectia novamente sobre recordações ou memorias que a tornava ainda mais depressiva, então virou as costa e começou a caminhar por aquele longo, belo e vazio corredor com, logicamente, muita pressa, acompanhava seus passos sempre de cabeça baixa demonstrando uma atitude mais séria e deprimente do que o normal.
Depois de observarem a Sonnure a desaparecer apressadamente no final do corredor, Lyndis encarou a princesa com seus grandes olhos felinos cor de esmeralda, e chamou logo a sua atenção.

- Então… Não tens fome? Como eu disse, todos estão á sua espera no refeitório real… - Lyndis apenas começava a andar, na direcção oposta do corredor, chamando pela princesa utilizando uma expressão facial um pouco severa, como alguém que absolutamente não gostava daquele trabalho, mas que estava ali por obrigação, porque não tinha mais nenhuma opção ou então devido a qualquer outro motivo mais negativo – Venha, eu a acompanho… Além disso, tens umas visitas…
- Visitas? – Agnes não obteve resposta, e aquela empregada apenas continuava a andar com sua natural expressão facial de arrogância, algo que fez a princesa ficar ainda mais curiosa com tal novidade, afinal quem seriam essas visitas? O que teriam de tão especial ou importante? Talvez a resposta era fácil e simples. Ela inicia então os seus passos atrás de Lyndis, seguia esta empregada apenas reflectindo sobre tal incógnita questão, já desconfiando da identidade de tais visitantes.

Depois de ultrapassar a maior parte dos aposentos reais, Iara chegou a uma determinada porta, abriu a mesma, esta levava a mais uma das longas escadarias do palácio, porém ao contrário de todas as outras era localizada numa área mais inóspita e fechada daquele grande edifício ancestral. A superfície dos degraus era composta por cimento muito negro e sujo, coberto de partículas de pó que se acumulavam em um intenso algodão nas extremidades, as paredes tinham um aspecto antigo e eram constituídas maioritariamente por blocos de pedra negra organizados aleatoriamente e interligados entre si por cimento claramente visível. Ali não existia nenhuma riqueza da realeza, evidentemente um local sem qualquer tipo de elegância, muito pelo contrário, uma área secreta e muito mais pobre de toda aquela enorme fortaleza, tal escadaria devido a estas características desagradáveis parecia nem competir ao restante palácio.
Ela descia tais escadas repugnantes em passos rápidos, claramente com muita pressa em chegar ao seu destino, a mordoma se guiava e combatia toda a escuridão sentida de tal divisão graças as chamas de inúmeras tochas acesas penduradas naquelas paredes negras, posicionadas numa espaçosa fila organizada ao acaso.
Chegou ao seu destino, uma desmedida sala vazia composta por muitas portas que levavam a inúmeros aposentos, e que, tal como a própria escadaria, era uma área de baixa qualidade, muito escura, sem janelas, com inúmeras tochas ou grandes candelabros constantemente acesos, repleta de sujidade em todas as suas extremidades, não seguia absolutamente nenhuma de todas as grandes exigências de requinte e subtileza seguidas obrigatoriamente por todo o restante palácio.
Aquela era a zona reservada exclusivamente às empregadas do palácio, popularmente conhecido como o Porão entre as mesmas ou Armazém entre os membros da grande família riquíssima que habitava nos andares superiores de tal grande edifício e que nunca haviam enfiado os seus pés sobre o pó acumulado no cimento negro do chão escuro e em muito mau estado de tal fechada área.
Era onde se localizava os aposentos destas empregadas, além de ser igualmente um armazém onde as mesmas guardavam os principais materiais de limpeza entre muitos outros objectos úteis e necessários para os deveres diários exigentes ao longo do seu emprego.
Tal zona não era mais chique ou formal pois tal não era claramente necessário, quem vivia e frequentava tal sala que cheirava a puro mofo, que parecia realçado ainda mais devido aos aromas tóxicos provenientes das misturas dos químicos de limpeza ali guardados, de paredes negras repleta de portas de madeira apodrecidas e cobertas de estruturas e maçanetas compostas por um ferro cheio de ferrugem, era apenas as simples empregadas. Não passava mais ninguém além de alguns guardas por ali, que mesmo assim nem era todos os dias e pareciam evitar o local ao máximo, talvez para não complicar os trabalhos das empregadas que andavam apressadamente de um lado para o outro, carregando materiais higiénicos até o exterior do Porão, ou arrumando devidamente os recém produtos já utilizados.
Empregadas e mordomos, empregados e mordomas, estes eram os seus aposentos, dando especial atenção para aqueles ou aquelas que não tinha casa própria e que viviam ali, atendendo assim a família real com os mais chatos ou complexos assuntos durante quase vinte e quatro horas seguidas.

 A mordoma ao observar a condição do local deu um suspiro depressivo, mas logo depois dirigiu-se directamente a uma das maiores portas de tal área, esta interligava a outro corredor, de estrutura e aparência semelhantes á repugnante sala anterior, porém nitidamente mais limpo e higiénico. Depois de passar pelo mesmo, chegou finalmente a uma porta dupla, a mesma estava entre aberta e por entre a sua devida ranhura saia uma radiante luz branca que destruía toda a escuridão sentida naquela zona do corredor.

- Eu sinceramente não acredito que ela foi capaz disso… Parece ser uma mulher tão… Pacífica… - Iara ao se aproximar da porta ouviu repentinamente uma voz a ecoar em toda a divisão.

Esta então parou repentinamente e espreitou por tal grande porta, com curiosidade e imenso cuidado, para sua presença não ser detectada. Dentro de tal sala estavam vários típicos Humanos e Sonnures, o local era claramente uma enorme cozinha, a mesma estava bem limpa e arrumada além de ser extremamente bela e estar em condições de grande excelência, em comparação ao Porão e aos seus aposentos típicos das empregadas pelos quais Iara caminhou nos momentos anteriores.
Realçava-se por ser uma cozinha extremamente espaçosa e dotada de objectos incontáveis de grandes variedades e formatos. A luz solar que saia de imensas janelas sobre as paredes ali encontradas iluminavam todos os utensílios de cozinha de alta qualidade, limpos e extremamente brilhantes de tal forma que radiavam constantemente um deslumbrante brilho metálico, além de muitos ingredientes frescos perfeitamente organizados no cimo das bancadas e interiores de vastos frigoríficos, alguns movidos graças a magias de gelo, outros devido á moderna tecnologia, além de refeições prontas a servir organizadas devidamente sobre as grandes bancadas.
Muitas das empregadas ali encontradas estavam bem atarefadas a lavar loiça rapidamente, seguiam as ordens fiéis de um Sonnure um pouco obeso que utilizava roupas de chefe, o mesmo pelo qual aparentava orientar toda a cozinha. Porém algumas mulheres e homens estavam localizadas perto daquela grande porta, numa conversa bem pacífica, possivelmente aproveitando algum momento de pausa do seu longo trabalho, a descansarem e conversarem serenamente, alguns até apreciavam naquele momento fumegantes cafés á medida que avançavam com o seu diálogo tranquilo.

- As aparências iludem, realmente… - Outra das empregadas concordava com as palavras ouvidas anteriormente, já que esta seguia fielmente toda conversa.
- Devíamos fazer alguma coisa em relação a ela?... Pode ser uma ameaça á família real… – Uma Sonnure encontrada com tal pequeno grupo de empregada questionou.
- Não… Nestes últimos oito anos ela não fez nada de errado… - O chefe da cozinha também acompanhava a conversa enquanto trabalhava, no momento este tirava uma grande quantidade de pão fresco acabado de cozer de um grande e antigo forno de lenha que ali perto existia – As pessoas podem mudar drasticamente com os anos, ela já não deve ser assim e logo não é capaz de tal… Mas quem sou eu para julgar?...
- Tens a certeza? – Uma mulher interrogava de modo inseguro.

A mordoma entra repentinamente na cozinha, fingia não ter ouvido nada da conversa e agia naturalmente, com um sorriso no rosto, como sempre fazia, apesar de nesta situação existir uma diferença mínima, tal sorriso não era puro como o seu normal, mas sim um sorriso claramente forçado.

- Então colegas? Como vai o trabalho? Estavam a conversar sobre o quê? – A nobre Sonnure questionava ao pequeno grupo sempre com tal sorriso pouco usual.
- A conversa não é nada de seu interesse! – O chefe da cozinha dizia de forma bem pesada á medida que colocava rapidamente toda a recém criada fornada de pão dentro de um grande e elegante cesto de vime, preparando este para servir á realeza mais tarde – Iara, estás muito atrasada para o trabalho!
- Sim chefe Greisse… Eu tenho noção disso… - Ela respondeu educadamente a tal informação, enquanto manteve-se seria, fechando seus olhos e abaixando a cabeça de modo respeituoso.
- Bem… Quais as ordens de hoje, minha mordoma? – Uma das humanas ali encontradas em pausa questionava educadamente, á medida que levava suavemente a sua chávena de café até os lábios e bebia o seu conteúdo líquido, ao mesmo tempo dava um sinal bem suspeito aos seus colegas, como se não quisesse que os mesmos voltassem a conversar sobre o assunto inicial.
- Ordens? Como… Assim? – Iara manteve-se numa posição mais séria depois de ouvir tal interrogação, naquele instante pareceu esquecer-se completamente dos seus deveres como mordoma… Ou então e, simplesmente, estava com sua atenção tão distante e focada totalmente em seus pensamentos depressivos que ignorou praticamente tudo o resto ao seu redor.
- O que queres dizer com isso? Esqueceu-se do seu cargo? – A mesma mulher dizia, confusa e olhava directamente para a sua superior, com uma grande cara de espanto.

O grande Sonnure cozinheiro, depois de ouvir tais palavras, gerou uma reacção inesperada em seu comportamento, naquele momento pareceu explodir e começava a dizer qualquer coisa pela qual havia á muito tempo entalado em sua garganta.

- És uma das nossas mordomas! Uma das empregada de maior estatuto aqui dentro! É assim que representas os empregados do palácio perante o rei? – O Sonnure começou a repreendendo com alguma violência, levantando a sua voz, pareceu extremamente irritado e bateu com o punho sobre uma das bancadas daquela bela cozinha, o som de tal impacto foi alto e assustador, algo que chamou a atenção de todas as empregadas ali encontradas que pararam logo os seus deveres para atentarem ao que acabara de acontecer.

A mordoma Iara afastou-se, muitos passos rápidos até a porta, encarava o grande homem e sentia de certo modo receio por tal comportamento pesado deste Sonnure, seu corpo começava a tremer do nada, assim naquele instante ela mudava completamente sua expressão, a mesma demonstrava extremo pavor, á primeira vista tal reacção lembrava algo instintivo, como se esta tivesse medo dos machos da sua própria espécie, ou então tal surgiu devido a alguma outra razão que não era aparente.

- És a nossa chefe, a nossa líder! E em vez disso… Em vez de nos guiares… Ficas ignorando e atrasando o nosso próprio trabalho? – Uma das mulheres que lavava louça não pode deixar de reagir á situação e apesar de estar ocupada em seus deveres transmitiu mesmo assim a sua opinião com algum rancor.
- Amanhã é o aniversário da princesa, existe tanta coisa para organizar… Nós não conseguimos fazer isto sem a nossa guia… Senhora Iara, estamos muito atrasadas, nós precisamos urgentemente das suas palavras e orientações… - Uma Sonnure de aparência muito jovem dizia, esta até parecia bem inocente com suas palavras e usava uma voz doce, calma e cheia de respeito, parecia não querer gerar uma discussão ali dentro, preferindo resolver as coisas usando o caminho mais pacifico - És uma das poucas pessoas entre nós que sabe como os rituais da realeza funcionam… Por algum motivo estás na nossa liderança…
- Realmente… Estes últimos meses andas muito desleixada… - Um dos empregado que lavava loiça, um humano comum por sinal, dizia tais palavras seguidas de um suspiro extremamente pensativo enquanto observava bastante atencioso a água a combater a espuma existente sobre alguns grandes tachos outrora sujos em suas mãos.
- Eu só acho que tens que passar menos tempo com a princesa e aquele Dreamur fedorento e te dedicares melhor á liderança das empregadas… Aos teus deveres como uma das principais mordomas do palácio… - O chefe da cozinha tentava acalmar-se ao se aperceber da reacção negativa da mordoma em relação ao seu comportamento pesado, não queria assustar ainda mais a pobre mulher.
- Não estamos a negar as suas limpezas… Até fazes um excelente trabalho na maior parte das vezes… És a melhor entre nós… Mas… Mas parece que só fazes esse trabalho por ti! E os outros?... És a nossa superior mas, ás vezes, parece que evitas e ignoras sempre a nossa liderança... Isso não é importante?... – Uma mulher desviava a cara, distanciando então os seus olhos dos olhos assustados de Iara á medida que dizia sua opinião calmamente, tentando assim e de certa forma evitar deixar o ambiente ainda mais pesado do que o já vivenciado.
- Eu… Eu hoje fiquei distraída! Foi só hoje… - A mordoma dizia de um modo depressivo como sua própria defesa.
- E durante os outros dias? Também andas distraída? E de todas aquelas vezes que acordavas tarde? – O chefe começava a levantar de novo a sua voz de modo bem brusco, atirando á cara desta uma parcela mínima da grande lista de tudo o que ele, aparentemente, havia para dizer.

A mordoma deu um longo suspiro na tentativa de se acalmar, fechou os olhos e inspirou profundamente, de seguida engoliu a seco e ganhou coragem, deu alguns passos em frente, encarando assim e directamente o grande Sonnure face a face.

- E já agora… Em vez de ficarem ai paradas a reclamar porque não vão realizar os vossos deveres? Eu já estou aqui não estou? Vamos lá despachar isto! – Iara também levantou a sua voz, algo que fez o Sonnure dar alguns passos atrás pois não estava esperando tal resposta vindo daquela mordoma, já as restantes empregadas, incluindo as que estavam em pausa, voltavam logo á realização dos seus deveres de um modo ainda mais dedicado e rápido que antes.
- Assim é que eu gosto… - O chefe virava a cara e dava um pequeno sorriso de satisfação ao observar a mordoma e as empregadas a retomarem em ordem, cada uma ao seu próprio ritmo, aos seus devidos deveres.
- Querem ordens? Pronto, estas são as ordens! Algumas de vocês devem se encontrar no pátio principal! É preciso ver a situação das carruagens reais e certificar se estão em condições e devidamente limpas para o cortejo e a viagem, umas dez empregadas devem chegar por agora, além de realizar uma limpeza profunda urgentemente ao grande salão!
- Sim senhora… - A maioria das empregadas concordavam.

Todas elas, rapidamente entre si, decidiram quem iria continuar a ajudar na cozinha real e quem iria concretizar os recém deveres, as que aceitaram as novas propostas de trabalho, aceleradamente saíram por uma das portas daquela grande e requintada cozinha, a mesma que iria parar, claramente, ao Porão, talvez para se reagruparem melhor ou fazerem um inventário dos produtos necessários para tais novas tarefas.

– Nós os cozinheiros tivemos a manhã inteira a cuidar do almoço de hoje e de algumas das refeições para amanhã, esta tarde terminaremos rapidamente os restantes pratos da ementa, e especialmente os doces e os bolos e todos os aperitivos salgados para a cerimónia - O grande Sonnure cozinheiro igualmente concordava com tal e decide transmitir alguma outra informação de relevância.
- Eu irei aplicar as restantes ordens ás restantes empregadas, no caso, aquelas que se encontram no momento desocupadas nos seus aposentos… - A mordoma dizia enquanto saia rapidamente da cozinha, pela mesma porta por onde entrara em tal área, voltando então ao tal Porão e aos seus aposentos escuros e imundos.

Iara rapidamente encontrou-se mais uma vez na tal sala escura, logo observou, no centro desta, um grupo de cerca de dez empregadas que já se localizavam a dividir tarefas entre si, com vários químicos das mais variadas qualidades em mãos, decide aproximar-se destas para acompanhar e ajudar as mesmas em alguma coisa relevante, mas, repentinamente, sente alguém a tocar nas suas costas, puxando a mesma pela sua roupa…
Virou-se, encarou mesmo em sua frente um homem que pelo formato de seus trajes indicava ser logo um outro mordomo, afinal a Iara não era a única empregada superior dentro daquele vasto e elegante palácio, porém, as vezes, tal parecia ser claramente uma verdade. Este mesmo mordomo era um pouco velho, vestia roupas verdes e vermelhas com detalhes dourados, um pouco rasgadas, além de uns óculos bem pequenos que quase não se encaixavam em sua cara, sua mão direita segurava um cajado, que suportava uma esfera vermelha na extremidade, e com a outra mão esfregava, de modo bem particular, o seu queixo repleto de verrugas á medida que encarava a Iara com um grande sorriso bem agradável e ao mesmo tempo, pensativo.

- Eu vejo que ultimamente andas muito desleixada no trabalho… Já não pareces a mesma pessoa… - O homem parecia ser alguém bastante sábio em suas palavras, continuava a encarar a mulher com aquele longo sorriso sincero.
- Mestre Sebastian?… Meu velho amigo!… - A mordoma dava um pequeno sorriso para receber tal presença – É um grande prazer reencontrar um antigo irmão…
- É verdade… Controlamos as empregadas de áreas muito diferentes desta enorme fortaleza… Raramente te vejo! - O homem dava uma pequena gargalhada de satisfação, depois aproximou-se a abraçava a Sonnure, um abraço cheio de saudade, como se fossem amigos já de longa data e que á muito não se encontravam, porém afastou-se passado alguns segundos, e pareceu demonstrar uma atitude de grande preocupação – O que eu ouvi falar sobre si e seus trabalhos ultimamente é bem… Desagradável… Diz-me querida… O que se passa ultimamente?
- Não é nada… Apenas e simplesmente distrai-me e agora todos me criticam por isso – Ela respondia educadamente com um sorriso que ao mesmo tempo demonstrava uma profunda tristeza, sendo que este não era tão intenso como os usuais.
- É devido ao comportamento da Lyndis? Preocupação com a segurança do palácio? Ou… É outra coisa?...
- Eu já disse… Não é nada… - Iara acabou ficando triste e séria, á medida ouvia tais questões importunas que desviava o olhar daquele mordomo, encarando o chão com certo desgosto.
- Eu te conheço bem… E sei que estás a mentir… Sinto que alguma coisa andou a te incomodar ultimamente… - O velho mordomo fazia tal observação enquanto endireitava os seus óculos e observava a mordoma Iara com um olhar bem sério, mas, ao mesmo tempo, muito carinhoso e atencioso.
- Pronto… É verdade… É uma coisa… - Ela o admitia.
- Queres desabafar? Somos velhos amigos… Velhos irmãos daquele antigo templo maravilhoso… Isso é algo que fica para sempre… Apesar de tudo, ainda te considero como alguém daquela grande família… Sabes que podes confiar em mim… Além de voltares lá sempre que quiseres…
- Eu sei… - A mordoma mais uma vez dava um sorriso forçado na tentativa de esconder a sua tristeza – É… Sobre o meu passado…
- Eu pensava que já não sentias dor pelo teu passado… - O homem dizia de um modo bastante calmo e cuidadoso.
- Talvez eu estava enganada… - A mulher deixava uma pequena lágrima escapar dos seus olhos – Ultimamente tem acontecido tanta coisa que… Eu preciso de… Mais algum tempo para reflectir…
- Entendo perfeitamente… - O mordomo aproximou-se de Iara e limpava carinhosamente as suas lágrimas – De facto… Por tudo o que eu sei… Devo ser dos poucos aqui a entender… Porque não vais para o teu quarto descansar um pouco?
- Eu tenho muito trabalho a fazer… Especialmente amanhã sendo o aniversário da princesa, tenho os preparativos e… - Esta mulher pronunciava á medida que demonstrava uma expressão facial de grande inquietação.
- Não se preocupe, eu hoje faço os deveres em seu lugar! – Ele interrompia e dava um grande sorriso para reconfortar a sua velha amiga, colocava as suas mãos levemente nos ombros da mulher, e dizia cuidadosamente as suas palavras com toda a sua profunda sinceridade além de dedicação – Afinal de contas, eu também sou um mordomo aqui dentro… E tenho que recompensar-te de todas as vezes que fazias os meus turnos e me ajudavas a controlar as empregadas da minha área de influência deste palácio… Além de pagar outras dividas…
- Obrigado… Muito obrigado!… - A nobre Sonnure igualmente sorria.

O velho mordomo assim despediu-se e logo de seguida dirigiu-se até o grupo de mordomas que se encontrava no centro daquela sala, para ajudar estas a se reagruparem ou então dar novas ordens ou controlar melhor as anteriores, já Iara foi directamente até uma determinada porta entre todas as outras inúmeras portas ao longo das paredes sujas de cimento daquela divisão escura.

Deu um suspiro á medida que tirava do bolso do seu avental, que esta tinha preso na sua longa saia de mordoma, uma chave, e destrancava a fechadura negra e coberta de ferrugem de tal porta. Entrou, aquele era o seu quarto, mas tendo em conta os comportamentos da mordoma em relação ás limpezas do palácio, aquilo nem parecia ser uma zona só dela, já que estava muito desorganizada e suja de partículas de pó que se amontoavam criando grandes quantidades de algodão sobre todas as mobílias, que de facto eram poucas e em si estavam muito desarrumadas.

 Era uma área bem pequena e fechada, composta simplesmente por uma pequena sala e um quarto extremamente apertado, ambos iluminados pela luz de uma pequena janela que permitia praticamente nenhuma claridade entrar ali dentro, a escuridão era combatida graças a alguns candelabros antigos que a mordoma, mal entrara no quarto, começava a acender usando simples gestos leves e mágicos com os seus dedos á medida que se aproximava ou caminhava perto destes. A forma como utilizava tal magia com facilidade indicava que Iara já praticava a mesma á longos anos, pois poucos conseguiam manobrar tal capacidade de Magia Elemental com tanta simplicidade.
Depois do quarto agora devidamente iluminado, dirigiu-se directamente a um sofá bem velho e estragado que existia mesmo encostado á parede negra, ao lado da janela apertada, de tão podre que estava até notava-se claramente o seu enchimento através de grandes buracos na forra suja e cheia de mofo e pó. Ela, muito pensativa, sentou-se por fim, atirando todo o seu corpo neste de um modo bem brusco, acompanhada por um grande suspiro de alívio e ao mesmo tempo, de um profundo sentimento de leve depressão.

Ao lado do braço esquerdo daquele velho, estragado e rasgado sofá, existia uma caixa, estava um pouco amaçada, cheirava a bolor, parecia que recebera muita humidade pelo tempo algo que fazia o seu papelão adotar manchas negras de água além de estar extremamente frágil e mole, rasgando-se facilmente. Iara olhou para o mesmo durante vários segundos, depois, sem se levantar do sofá, aproximou-se e o abriu, começou a procurar calmamente algum coisa. A caixa era repleta de antiguidades, especialmente muitas estátuas, a maioria destas partidas, algumas em inúmeros estilhaços, além de velas e candelabros praticamente novos, pouco usados, apesar de terem estado, aparentemente, alguns anos expostos a um estado de conservação pouco favorável.
Depois de muito tempo, mexelhando em tais objectos antigos com gestos leves, encontrou finalmente o que pretendia, localizada bem no fundo da caixa, era uma fotografia a preto e branco, as extremidades da mesma estavam um pouco queimadas e se localizava no interior de uma moldura cujos vidros permaneciam quebrados devido ao peso dos objectos em que esteve exposta, mas ainda dava para contemplar facilmente a imagem que o velho papel ilustrava. Era uma criança, uma criança Sonnure que curiosamente de aparência lembrava muito a própria Iara, parecia recém nascida e se encontrava embrulhada sobre um aconchegante manto branco. Talvez tal bebé seria mesmo ela quando mais nova, só que com uma tonalidade de pele mais escura, ou então algum familiar distante, ou alguma filha pela qual esta tivera e que nunca mais ouviu falar, mas tal era pouco provável, Iara sempre dizia que não tinha filhos.

A mordoma permaneceu sentada, ali mesmo, a observar a fotografia, estava claramente muito triste por esta, uma pequena lágrima escorria em sua face, acariciou levemente com a ponta dos seus dedos que eram cobertos de uma pequena pelugem cor de areia, tal como todo o seu corpo antropomórfico, a imagem, passando estes cautelosamente sobre o vidro quebrado. Colocou a fotografia ao seu lado, com bastante cuidado, logo de seguida posicionou-se de modo a que sentia-se bastante confortável naquele duro sofá em más condições. Fechou então os olhos e tentou manter a respiração a um único ritmo, proporcionando um estado de relaxamento, quase como uma meditação, e, levemente, murmurou as seguintes palavras…

- Passado ou futuro, presente oculto, revelar-me-ei agora a vossa mais recente escolha ou forma …

Sua mente começava, aos poucos, a ficar mais leve e a receber de forma inexplicável várias memórias, não eram memórias dela, nem memórias de mais ninguém, e nem mesmo memórias eram ou pareciam ser, mas sim, visões, visões estas que, cheias de clareza e perfeição, transmitiam alguma informação figurada que a mordoma, simplesmente e misteriosamente, conseguia receber e decifrar com facilidade. Ninguém sabe ao certo se tal era magia ou bruxedo, alguma habilidade estranha e natural, mas Iara apenas conseguia, apenas conseguia fazer tal, e assim, durante muito tempo, permaneceu ali, meditando sobre as palavras enigmáticas de figuras desconhecidas de um certo tempo que ainda não fora revelado.


Morte, guerra, gritos de desespero, o som de armas violentamente embatendo entre si, grandes guerreiros num enorme campo de batalha brigando em nome dos incógnitos interesses da pecadora glória. Por entre as poeiras negras levantadas sobre tais terras imprudentes, uma figura negra segurava um cajado, erguido ao ar, brilhando á medida que criava uma enorme escuridão que dominava toda a área. Em todos os lados do conflito, uma chuva negra de sofrimento e esquecimento cobria tais homens e mulheres lutadoras que logo se transformavam em monstros horripilantes, sem vida, sem compaixão, sem futuro…

E tal figura, apenas sorria, um sorriso longo e macabro sem qualquer sentimento explícito além do prazer e da ânsia por sangue fresco, porém, tal pessoa era familiar, muito familiar, alguém cujo corpo distorcido e cujos cabelos negros demonstravam vontade de destruição por mera vingança e ódio por algo que ocorrera durante o seu macabro passado…


Ela abria os olhos, repentinamente, colocava logo as suas mãos ao peito, parecia estar a sentir uma profunda dor sobre o seu coração, encontrava-se com imensas dificuldades na respiração, um aperto angustiante nos polmões. Acabou por cair do sofá e assim ajoelhou-se sobre o chão frio e sujo daquela divisão negra e imunda, pareceu inquietada. Tentava acalmar-se, com uma respiração acelerada, inspirando e expirando inúmeras vezes pela boca, algumas lágrimas caíram dos seus olhos e de facto esta parecia bem desesperada naqueles pequenos segundos que para ela foram bastante longos e angustiantes.
Acabou encostando a cabeça para trás, assente sobre uma certa parte do sofá, já mais calma, na tentativa de sentir-se mais confortável em tal posição bem peculiar sobre o solo, encarava o tecto e inúmeros objectos e móveis aleatórios dos seus aposentos, demonstrando ainda estar desorientada devido a tais visões e revelações, apesar de encontra-se já sem tais dores misteriosas, depois virou lentamente a sua face para o lado, observando de relance a fotografia daquela magnifica criança que encontrava-se precisamente sobre o assento de tal móvel.

- Não… Outra vez não… - Ela dizia enquanto continuava na tentativa de recuperar o seu folega, sua voz no momento demonstrava uma profunda angustia á medida que observava aquela fotografia antiga, e ainda mais lágrimas saiam dos seus olhos – Ela?… Não… Não pode… Não pode ser…

Aquele fora realmente um momento bem difícil para esta, quando já estava realmente aliviada, acabou por levantar-se, deitando-se em cima daquele sofá rasgado e sujo, segurou a fotografia em suas mãos com bastante ternura, novamente acariciou-a, beijou os vidros quebrados da moldura e a imagem de tal menina com bastante cuidado e amor bem explícitos em tais gestos, e por fim fechou os olhos, apoiou tal fotografia ao seu peito, abraçando assim a mesma á medida que descansava e recuperava toda a sua energia gasta devido aquela estranha habilidade de criação de visões cansativas e misteriosas de um tempo incógnito. Pareceu murmurar algo para si própria, como se uma melodia se trata-se, palavras frias e tristes quase silenciosas e pouco explícitas, eram vindas do fundo do seu gélido e aterrorizado coração.


Eras perdidas, dores constantes
E minhas oposições, irrelevantes…
Profundo sofrimento, eternamente a pesar…
Tal e qual é o desejo, de te lamentar…

Presa e torturada… Por um passado a inquietar…
Aqui dentro fechada… Eternamente a pensar…

Uma construção, os meus erros…
Constantemente a cair…
Silenciosos meus gritos… 
Sigilo a esconder…
Tudo o que construi, a estremecer…

Tristeza, desgraça, para onde quer que eu vá…
Memorias apagadas, tempestades constantes… 
Tudo o que eu sinto, o tempo sempre trará!
Recordações abandonadas, dilemas extravagantes…
Além da tristeza e desgraça, para onde quer que eu vá…

Será que… Sou eu, apenas eu… Constantemente a delirar?...
Será que tudo isto… Profunda dor pelo passado…
Meu desespero ou esperança, a disparatar?...
Ou será que sou eu?... Constantemente a delirar?...





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